segunda-feira, 30 de maio de 2011

Entrevista: Antigo elemento dos extintos Forcados Amadores da Nazaré, Vítor Santos falou para o Quiebros e Chicuelinas


















"Se tivesse havido mais respeito entre pessoas do grupo naquele tempo este não teria terminado"


Entrevista de Joaquim José Paparrola e Bruno Paparrola

Reportagem Fotográfica gentilmente cedida por Vítor Santos.


Quiebros e Chicuelinas - Como nasceu a ideia de formar um Grupo de Forcados Amadores na Nazaré (GFAN)?
Victor Santos - Inicialmente um grupo de malta que gostava da festa brava onde eu me inseria, decidimos organizar um grupo de forcados amadores. Tendo sido por este ideal de viver a festa brava e a partir desta situação que nos fez sentir fortes em termos mentais, que partimos com o intuito de tentar abraçar esse projecto. Tivemos muito apoio de pessoas mais velhas que nós para avançarmos com o nosso objectivo, que nos incutiram o desejo a vontade e a sua colaboração para termos as bases para começar. Tivemos por diversas vezes a colaboração da direcção do Planalto na altura que nos cedeu a praça para treinarmos, e tendo eles conhecimento no mundo da festa brava, conseguimos arranjar mais locais para continuarmos a treinar (pegar vacas), a partir dai tudo estava a nosso favor.

Quiebros e Chicuelinas -Para se formar um forcado é necessário ter gosto, coragem e dedicação, e tudo isso veio de onde?
Vítor Santos - Nós partimos do zero, foi muito complicado no início, numa conversa na altura falámos com o então cabo dos Forcados das Caldas da Rainha, Arnaldo Santos que se disponibilizou de imediato, não com o intuito de dirigir o nosso grupo mas sim ensinar-nos a cultura do Forcado. Foi ai que agarrámos com todas as nossas forças a ideia que queríamos seguir em frente na forcadagem. Sabíamos que era uma grande responsabilidade para nós encarar este desafio, já que temos raízes de aficionados no nosso concelho. Apesar de a Nazaré ter a praia mais castiça “O Campo Pequeno” da província como ainda todos chamam e onde todos os toureiros gostavam e gostam de tourear, onde toda a forcadagem gosta de pegar, nós queríamos tirar partido dessa situação, para formarmos também um grupo de forcados. Não tínhamos essência, não tínhamos ideias aquilo era tudo novo para nós, víamos os outros fardados, víamos aquilo que eles faziam não iria ser fácil a nossa tarefa, a forcadagem requer muito trabalho, cultura dedicação e um gosto enorme pela festa brava. Inicialmente tínhamos malta que ia às vacadas, e nos primeiros meses de existência do grupo encontrávamo-nos todos os sábados para prosseguirmos os treinos não só com vacas, mas com o intuito de nos educarmos na forcadagem, já que arranjámos uma tourinha para treinar. Começar a entender as posições de um grupo, de forma e sabermos estar numa arena aquando das pegas.

Quiebros e Chicuelinas - O vosso grupo era composto por quantos elementos, e onde arranjaram os fardamentos já que por estes lados (Nazaré) não existia nenhum local para tal?
Vítor Santos - Conseguimos arranjar cerca de 20 elementos, tendo sido com esses que nos lançámos nessa aventura que era muito séria, tínhamos de saber se realmente queríamos avançar e também saber se teríamos condições para abraçar este projecto. Quanto á parte das vestimentas, não foi fácil conseguirmos as mesmas, eram difíceis de saber onde as arranjar, e eram muito dispendiosas segundo nos diziam. Fomos á Benedita a um sapateiro que sabia confeccionar os sapatos de forcado, tivemos também uma senhora do Sitio da Nazaré que teve a honra e o prazer de nos confeccionar as nossas jaquetas, sem dúvida uma mais-valia para nós, essa ajuda preciosa. Outra senhora também do Sitio da Nazaré nos confeccionou os calções para todo o grupo, e estava assim lançado o grupo de Forcados Amadores da Nazaré.

Quiebros e Chicuelinas - Quando se estreou o grupo, como correu a primeira experiência?
Vítor Santos - Decorria o ano de 1984 quando fizemos a nossa primeira corrida oficial em Março desse ano, na Praça da Nazaré. Foi um teste real às nossas capacidades, depois de um ano de muito trabalho, o dia em que nos fardamos de forcados foi um momento maravilhoso tanto para nós bem como para todas as pessoas que connosco estiveram desde o início dessa nossa aventura, eles estiveram sempre do nosso lado, pessoas de grande carácter. Os nossos testes de fogo eram nas Corridas de dia 8 de Setembro (dia de Nossa Senhora da Nazaré), foram anos espectaculares, logo no primeiro realizámos a nossa Festa Campera no local onde se realizava a nossa festa, e onde treinávamos.

Quiebros e Chicuelinas - Porque terminou o GFAN, depois de tanto trabalho para o iniciar, qual o momento mais negativo na história do grupo?
Vítor Santos - O nosso grupo acabou devido a uma corrida em que pegámos e onde poderia ter morrido gente. Nessa corrida de toiros pegámos toiros da Ganadaria José Manuel Andrade, e logo em sorte calhou-nos os três piores toiros. Um forcado nosso na tentativa de pegar um toiro ficou com corte na zona do pescoço devido a uma bandarilha, que lhe poderia ter tirado a vida e começou-nos a faltar “coração” para continuarmos a pegar toiros. Para se ser Forcado é preciso ter grande comportamento, sabermos estar na Festa. Registo como ponto negativo o facto de o nosso grupo ter terminado, penso que havia condições para dar seguimento ao trabalho desenvolvido até então, mas devido à falta de humildade de algumas pessoas de então (forcados), se fossem menos orgulhosas e se tivessem mais respeito umas pelas outras isto nunca teria terminado.

Quiebros e Chicuelinas - Qual o momento mais positivo do grupo, tendo também certamente histórias para contar sobre o GFAN, pode relatar algumas?
Vítor Santos -Um dos momentos mais positivos do grupo foi termos ido pegar a uma praça bastante importante em Espanha, no caso da de Saragoça. Na noite anterior tivemos uma prestação não muito positiva numa corrida de toiros realizada na Monumental de Cascais, onde só pegámos à sexta tentativa tendo um elemento do nosso grupo (forcado que foi à cara,) dado entrada no Hospital de Cascais devido a algumas lesões provocadas na sequência dessa mesma pega. Passámos a noite no quartel dos Bombeiros de Cascais e logo pela manhã tínhamos de arrancar para Espanha, mais concretamente Saragoça. O elemento que se tinha lesionado com alguma gravidade estava de cama no hospital e fomos visitá-lo e ao qual perguntámos “Como é, vens ou ficas?”, os médicos não o deixavam sair devido a ter de realizar alguns testes para apurarem as condições dele de puder receber alta. E então lá “agarrámos” nele sem ninguém saber e arrancámos até Saragoça, mas não era só este forcado que estava lesionado, tivemos que levar o grupo quase todo “partido” da pega realizada na noite anterior na Monumental de Cascais. Foi uma experiência espectacular pegar em terras espanholas e termos formado o nosso grupo de forcados apesar de termos enfrentado, algumas adversidades ao longo do nosso percurso enquanto forcados no grupo da Nazaré. Chegámos a pegar em Vila Nova de Poiares, Almeida, Batalha e pegámos numa noite em que esteve presente nas bancadas a grande Diva do Fado a nossa “Amália Rodrigues”.

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